Mauro Passos - Entrevista

O tempo da energia solar está chegando

Mesmo que a passos lentos, a energia solar está ganhando espaço no Brasil e será tema da 6ª edição do Cidade Bem Tratada. No segundo dia do seminário, o painel Energias Alternativas irá tratar dessa e outras tecnologias. Um dos palestrantes confirmados é o engenheiro e diretor-presidente do Ideal, Instituto para o Desenvolvimento de Energias Alternativas na América Latina, Mauro Passos. “O tempo da energia solar está chegando”, afirma ele.

No ano passado foi registrado um crescimento de 340% que, embora pareça muito, não chega a ser comemorado porque partiu de uma base pequena. Segundo os dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), em abril foram concluídas as instalações e conexões de mais de 10 mil painéis solares de microgeração de energia no país, resultando na geração de 112 megawatts. Comparado com a energia eólica que adicionou à rede no ano passado 2 mil megawatts ainda é pouco. Mas, tendo em vista que em outubro de 2016, o país contava com apenas 5 mil painéis solares, o número de instalações dobrou em seis meses.

Se o crescimento seguir nesta ordem, a projeção é de que em 2024 exista 1 milhão de painéis instalados. Na estimativa de Mauro Passos, diretor-presidente do Ideal, Instituto para o Desenvolvimento de Energias Alternativas na América Latina, se isso se concretizar seria viável a implantação do setor tanto a parte de instalação como na de fabricação. “Olhando para a possibilidade de 1 milhão de telhados, o Brasil passa a ser um player de desenvolvimento tecnológico e fabricação própria, que foi o que ocorreu com a energia eólica. Antes do boom eólico, o país importava tudo. Hoje, toda cadeia eólica é produzida aqui”, detalha Passos.

Para ele, a expansão crescente é um bom indício. “Isso é muito positivo, pois mostra uma aceitação quase natural das pessoas em relação à energia solar. Mostra para o mercado que há um grande potencial no Brasil não só em função da insolação que se tem, mas principalmente em relação ao produto que está sendo apresentado”, garante Passos. Conforme as informações da Aneel, a demanda atual está mais baseada na modalidade de microgeração de energia e que para supri-la ainda há pouca concorrência local. Atualmente, existe uma fábrica de painéis operando em Campinas (SP), mas com toda produção dela comprometida. Outras companhias estão anunciando a sua intenção de se instalar no Brasil. Além disso, estão chegando painéis importados da China.

Da fonte para o consumidor

“A expansão da energia solar no Brasil está acontecendo dentro das casas e condomínios. Isso foi facilitado por conta da regulamentação aprovada em 2012 que permite que o próprio consumidor instale um painel solar e o conecte na rede de energia, trocando sua eletricidade por descontos e compensação na conta de luz. Passos analisa como um fator positivo a geração e o consumo estarem acontecendo no mesmo lugar. Com isso, não há necessidade de linhas de transmissão e de distribuição. “Se a pessoa tiver em casa a placa fotovoltaica no telhado o consumo é imediato, da placa para a tomada”, afirma. Essa modalidade libera o consumidor dos tributos que estão associados à energia elétrica, principalmente em relação à tarifa que se paga. “Atualmente, se o kWh custa R$ 100, 50% desse total são impostos. A concessionária tem um mercado cativo. Se você se tornar um produtor independente a companhia não vai te receber de braços abertos. É o tempo do convencimento, de desarmar alguns preconceitos ainda”, acredita o diretor-presidente do Instituto Ideal.

Recursos disponíveis retardam processo

Para Mauro Passos, o tempo desse processo de implantação da energia solar foi retardado por conta do potencial hídrico nacional, já que a fonte “hidrelétrica” é uma das bases da matriz energética brasileira. “De certa forma, isso acaba retardando todo processo das fontes alternativas, pois se já tem um processo renovável, que é a água, e que se domina, pois a engenharia brasileira sempre dominou a questão das hidrelétricas, tanto que a Itaipu é a segunda maior do mundo”, diz Passos, que é engenheiro Mecânico de formação, especializado em Recursos Hídricos, Hidrologia Aplicada e Planejamento Energético.

A tendência é de que esse processo seja mais rápido em países que não têm fontes disponíveis de energia, pois se investe mais em tecnologia e pesquisa para não ficar refém do petróleo ou carvão. “Em nosso país sempre houve uma condição de ventos muito favoráveis e a energia eólica também demorou quase 30 anos para se estabelecer”, completa.