Fernando Meirelles - Entrevista

Brasil deve usar e abusar da sua capacidade de gerar energias renováveis

O coordenador do painel Energias Renováveis e Sustentáveis, professor Odorico Konrad, lembra que há 15 anos ele mesmo não acreditava que a energia fotovoltaica seria possível no Brasil. Hoje, essa matriz energética é uma realidade no País, embora o crescimento seja a passos lentos. “O painel do Cidade Bem Tratada é um espaço para divulgar as energias renováveis. Hoje, 75% da matriz energética mundial é dependente de energias não-renováveis ou fósseis, como gás natural, petróleo e carvão”, afirma o coordenador do Laboratório de Biorreatores do Parque Científico e Tecnológico da Univates.

Embora o Brasil apresente um cenário um pouco melhor, ou seja, 50% da matriz energética depende desses três grandes fósseis, o professor defende que seja necessário visualizar para o futuro outras formas de geração de energia. “O Brasil apresenta uma situação melhor que o ambiente internacional, mas precisa usar e abusar da sua capacidade, pois tem um potencial eólico gigantesco”, diz Konrad. Segundo o professor, mesmo com a crise econômica, os parques eólicos seguem em expansão pelo País, principalmente na costa. Com o vento soprando a favor, eles estão se espalhando por outros estados, como o Ceará. “Registramos um forte crescimento nos últimos anos. A geração de energia no parque de Osório-Palmares é espetacular”, afirma ele.

Outra energia alternativa que está surgindo com força é a solar fotovoltaica. “Há 15, 20 anos se duvidava que seria possível. Esse também era um discurso que eu tinha, pois o investimento altíssimo não era compatível com a realidade brasileira”, lembra Konrad. Ele acreditava que a tecnologia ficaria restrita a sistemas potenciais, em ilhas ou lugares de difícil acesso com rede. No entanto, não foi isso que aconteceu. A entrada no mercado de equipamentos com boa eficiência conseguiu reverter a energia solar de forma mais eficiente. Com o preço das placas fotovoltaicas em queda, o investimento começou a se tornar mais atrativo para o mercado local.


RETORNO GARANTIDO

“Precisávamos de um atrativo melhor como o investimento. O brasileiro não pode desembolsar um alto valor de investimento para um retorno a longo prazo. Nossa realidade nos retornos de investimentos são de cinco, dez anos”, explica o coordenador. De acordo com Konrad, o valor das placas – todas importadas - caiu em torno de 40%. Além disso, os governos estaduais também estão enxergando a energia solar com outros olhos. No ano passado, o governo gaúcho aderiu ao convênio do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) que desonera a mini e microgeração fotovoltaica de energia e deu início a elaboração do Atlas Solarimétrico, que apontará onde está e qual é o potencial do Rio Grande do Sul para explorar a energia solar. Apesar da sinalização positiva, o professor destaca que é preciso ir além.

“Precisamos de investimentos e facilidade com segurança de empréstimos diferenciados para novas tecnologias. O retorno é garantido, pois a energia vai ser gerada e o preço da energia não tem tendência de cair radicalmente”, afirma.

Além da fotovoltaica, o coordenador do painel destaca o fototérmico, que é a água quente para consumo em uma residência. É o mesmo conceito da fotovoltaica, mas de forma muito mais simples. “A energia fototérmica está começando a ficar mais popular. Temos um espaço gigantesco no Brasil e principalmente no Sul. Na minha casa tenho uma água quente de ótima qualidade com apenas duas placas instaladas”, comenta Konrad


BIOMASSAS

Um dos temas que promete movimentar o seminário é a discussão sobre as biomassas. Segundo o coordenador do painel, o etanol é fato no Brasil há quatro décadas. Konrad alerta, no entanto, que é preciso cuidado quando se refere a biomassas com foco em cima do plantio de monocultura. “Isso não quer dizer que por ser uma biomassa de energia renovável que está tranquilo ambientalmente. É preciso rever alguns conceitos, até onde se pode ir com a produção de etanol”, observa. O mesmo conceito do etanol se aplica ao biodiesel que já tem participação dentro do diesel brasileiro. “Esse biodiesel vem principalmente da monocultura da soja. Não estou dizendo que é proibido, mas não se pode querer sustentar toda a produção de biodiesel no Brasil com uma monocultura”, explica.

O professor também destaca a biomassa da madeira, que já se usa muito no Rio Grande do Sul. Ele observa que o plantio de florestas para o viés de produção de energia tem uma tendência de aumentar, pois estão surgindo tecnologias para utilizar melhor a madeira como geradora de energia. Os pellets, por exemplo, estão entrando no mercado brasileiro e conseguem reduzir em até 70% o consumo de energia em comparação com a situação biomassa/floresta para energia industrial. “Estamos visualizando isso de forma positiva, mas entra-se também na característica de monocultura. É preciso equilibrar o plantio de monocultura para geração de energia e não pensar que vamos atender toda demanda energética do País com monoculturas”, afirma.

Outra alternativa de energia renovável é o biogás brasileiro, que tem como foco principal a produção de energia com resíduos agroindustriais ou dejetos do meio rural, diferente do sistema europeu que tem seu foco na produção de biogás utilizando, principalmente a silagem de milho. Além da produção de energia, “no Brasil a proposta também é tratar dejetos e, a parir dele, obter biofertilizante como resposta”, completa o professor.