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A cidade é composta por ruas, prédios, parques, pessoas. Em grandes cidades, metrópoles e megalópoles, o crescimento acelerado de indústrias, serviços e construções urbanas condiciona nosso olhar para fora. É aí que passamos a enxergar a cidade a partir do entorno. Esquecemos, no entanto, que a cidade começa dentro de casa.

Cecilia Herzog, paisagista urbana e especialista em Preservação Ambiental das Cidades, diz que um lugar, para ser sustentável, precisa da ajuda das pessoas. “Não basta só ter a natureza dentro da cidade. Os moradores precisam ser educados de uma maneira ecológica, saber que eles pertencem à natureza, desenvolver uma biofilia, ou seja, amor pela natureza”.

Quando a cidade deixa de ser um problema individual e se torna apenas público, o problema é `de ninguém´. Mas o que cidadãos organizados, empenhados em reverter índices pessimistas de urgência climática, podem fazer agora se quiserem correr atrás do prejuízo?

Para Caroline Morais, coordenadora de Relações Institucionais da Associação Brasileira das Indústrias de Vidro - Abividro, a separação de materiais e resíduos dentro de casa é uma resposta.

Quem assistia à televisão nos anos 2000 se deparava com o boom de comerciais sobre coleta seletiva e separação dos resíduos. Duas décadas depois, ainda estamos discutindo se precisamos ou não aprovar projetos de lei para colar cartazes de conscientização.

Com a diminuição das propagandas e o desinteresse crescente das mídias no assunto, a conscientização fica de lado. Não é difícil encontrar um amigo ou familiar que já desistiu de ter mais de uma lixeira na cozinha de casa. As desculpas são muitas:

- quer evitar o mau cheiro e prefere descartar os resíduos diariamente;
- sabe que quase ninguém separa;
- já viu que o caminhão é o mesmo durante a coleta;
- ou a clássica: os catadores misturam tudo.

No entanto, os catadores brasileiros são fundamentais para o alcance de índices de reciclagem mais otimistas nas últimas décadas. Exemplo disso são as latinhas. O Brasil é o pais líder em reaproveitamento de alumínio no mundo. Cerca de 97% das latinhas são recicladas em um período de 60 dias entre a produção e a chegada do alumínio novamente à indústria. E isso se deve ao trabalho - de formiguinha - dos catadores.

O caso dos catadores é exemplo evidente de que o indivíduo tem força para tocar adiante projetos de uma cidade mais limpa. Sem ignorar o fato de que estão em posições de desprivilégio na pirâmide social, ou seja, encontram na atividade o seu sustento. Nesse sentido, os catadores têm buscado cada vez mais fazerem parte de cooperativas e movem receita bilionária por ano no Brasil com as latinhas.

“Para uma cidade ser sustentável de fato ela tem que pensar em circuitos completos: seja no fechamento do círculo de energia, seja na economia circular”, afirma Cecília Herzog.



Outra tendência, além da reciclagem direta de resíduos sólidos, é o reaproveitamento do resíduo orgânico. As hortas, jardins comunitários e composteiras são grandes aliados, não apenas na diminuição do descarte de resíduos úmidos, mas para que a parte reciclável dos resíduos não seja contaminada e suja.

Mas e o vidro?

A logística reversa do vidro, embora vantajosa, ainda é um desafio no Brasil. Por aqui, ainda custa mais barato produzir vidro do zero ao invés de reciclar. Segundo Caroline Morais, o principal desafio para que a reciclagem de vidro alcance os índices das latinhas é logístico.

"Nosso país é muito grande e possui enorme complexidade no transporte. As indústrias vidreiras estão em grandes centros populacionais, por isso viabilizar a logística reversa fora das grandes cidades, de forma eficiente e com menor custo, é o maior desafio da reciclagem. Além disso, falta conscientizar a população sobre a importância de segregar os resíduos secos e úmidos e encerrar os lixões.”

Por mais trivial que seja, perceber como é feito o descarte de resíduos de uma casa é umas das chaves para engajar uma cidade inteira num só propósito. Mas existem muitas outras, a serem descobertas e debatidas.

Quais soluções podem ser tomadas para estendermos a noção de cidade para dentro de nossas casas?

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